8 de novembro de 2005

"O Fiel Jardineiro" (The Constant Gardener, 2005), de Fernando Meirelles


Porque o amor é aquilo que mais vale a pena e salvar uma pessoa é salvar o mundo inteiro, vale muito a pena ver «O Fiel Jardineiro».
Narrativa que imbrica a história de amor entre Justin (magnífico Ralph Fiennes, de uma contenção à prova de bala) e Tessa (bela e ambígua Rachel Weisz) com a intriga global composta pela promiscuidade entre a indústria farmacêutica e a diplomacia britânica, este é um feliz exemplo do casamento entre a diversão e a reflexão. E há duas coisas particularmente comoventes neste filme. A primeira é a forma como dá a ver as vidas com diferentes preços: África surge como um continente maldito permanentemente colonizado (transformando-se a antiga colonização política numa neo-colonização económica). Uma vida no Quénia vale muito pouco e poucos se importam com isso (eles são tantos que, se não os podemos ajudar a todos, mais vale não ajudarmos nenhum…). A segunda é a maneira como Justin vai acabar por completar o trabalho da sua mulher na ausência dela. É nessa viagem também de auto-descoberta que, vendo as coisas com os próprios olhos, Justin percebe melhor a mulher e acaba por partilhar o seu ponto de vista. É, no fundo, através da reconstituição da vida (algo secreta) dela que ele acaba por sublimar o amor entre os dois.
Trata-se de um importante relato global dos nossos iníquos tempos que se torna particularmente emotivo por não existir fora das convulsões particulares de cada ser humano. Que isto resulte da adaptação de uma obra de John Le Carré por parte de um cineasta brasileiro como Fernando Meirelles é, no mínimo, surpreendente. E que bela banda-sonora de Alberto Iglesias.

2 comentários:

antonioluis disse...

Ví este filme neste fim de semana e achei-o espectacular. Foi um soco no estômago que me fez pensar como é possível elegermos pessoas(serão?) que nos representam e cometem, por linhas tortas, semelhantes atrucidades? Como é possível que eu não faça nada? Acho que somos um falhanço como civilização. Parabéns ao Fernando Meirelles por mexer na "Paz Podre".

Jorge Silva disse...

Pois é, o filme ilustra exemplarmente o mundo dos interesses económicos que explora implacavelmente os indefesos. E as desigualdades gritantes que permanecem, permanecem, como se fossem um mero dano colateral da nossa querida civilização de instalados...