4 de Fevereiro de 2010

Nas Nuvens (Up in the Air, 2009), de Jason Reitman


Um filme muito actual que retrata fielmente a solidão e que acaba por resultar na personagem de George Clooney (muito bem neste papel, aliás, nomeado para o Oscar) como irónico contraponto da sua imagem de galã. Muito bem escrito - o Oscar de Melhor Argumento Adaptado assentar-lhe-ia como uma luva -, o filme faz lembrar o tom de algumas comédias de Billy Wilder, ao mesmo tempo que embarca por caminhos de crónica social (veja-se a análise que faz a um dos maiores flagelos dos nossos tempos - o desemprego) que um Ken Loach não desdenharia. Um triunfo.

1 de Fevereiro de 2010

Filmes da Década (2000-2009)


E pronto. Ficou encerrada a divulgação da minha lista dos melhores filmes da primeira década do século XXI. Em resumo:

1 - A.I. Inteligência Artificial (2001), de Steven Spielberg
2 - O Estranho Caso de Benjamin Button (2009), de David Fincher
3 - O Senhor dos Anéis (trilogia, 2001-2003), de Peter Jackson
4 - Memento (2000), de Christopher Nolan
5 - INLAND EMPIRE (2006), de David Lynch
6 - A Vida Não é um Sonho (2000), de Darren Aronofsky
7 - Relatório Minoritário (2002), de Steven Spielberg
8 - As Horas (2002), de Stephen Daldry
9 - Dancer in the Dark (2000), de Lars Von Trier
10 - Babel (2006), de Alejandro González Iñarritu

29 de Janeiro de 2010

1 - «A.I. - Inteligência Artificial» (2001), de Steven Spielberg


Apesar de incatalogável, digamos estar na presença de um conto de fadas futurista, que pode ser também visto como uma odisseia às dúvidas humanas mais ancestrais. Por esta extraordinária história e assombrosos ambientes passam as célebres perguntas: Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?
O argumento constrói uma grande metáfora sobre o Homem, a partir do percurso de uma sua criação (um ser mecânico programado para amar) em direcção ao sentido da sua existência.
É difícil destacar seja o que for num contexto de tamanha criatividade. Consequência natural de um projecto amadurecido que conjuga a genialidade de quem o desenvolveu (Kubrick) com a de quem o materializou (Spielberg) com a ajuda de uma equipa técnica fantástica, com destaque para a cenografia, absolutamente mágica (dos mais gigantescos cenários ao mais pequeno objecto). Haley Joel Osment e Jude Law são superlativos nas suas inesquecíveis personagens, mas é bom não esquecer o óptimo papel de Frances O'Connor. Relativamente à questão incontornável do contributo de Kubrick para o filme e do seu peso relativo, atrevo-me a dizer que se deu aqui uma imbricação perfeita de universos criativos muito diferentes. De facto, Spielberg conseguiu fazer um filme genuinamente seu, que é, simultaneamente, uma homenagem póstuma incrível ao seu amigo Kubrick. Estão lá elementos nítidos de «2001», «Shinning» ou «Laranja Mecânica»...
Embora ache que o filme teria um final perfeito num "determinado plano subaquático", não deixa de ser perfeito por depois desse plano nos dar um saboroso epílogo que funciona quase como um extra de luxo. O prazer imenso da fruição desta obra prolonga-se através das questões que nos coloca e que perduram na nossa mente tanto quanto as suas imagens na nossa memória. Na minha modesta opinião, o filme da década e um dos melhores de sempre.

28 de Janeiro de 2010

2 - «O Estranho Caso de Benjamin Button» (2009), de David Fincher


Um clássico instantâneo e um daqueles exemplos do cinema enquanto arte maior. Uma história em jeito de fábula protagonizada por um ser muito especial, que nasce velho e morre bebé, mas que afinal descobrimos ser igual a todos os outros seres humanos. Amor, desejo, alegria, tristeza, vida, morte, dor, são os ingredientes deste filme comovente e absolutamente extraordinário. Para além do grande argumento, realização e interpretações, merece destaque o assombroso trabalho de caracterização e efeitos especiais que, ao contrário do que é corrente, estão apenas ao serviço da história e não procuram o protagonismo. Inesquecível.

26 de Janeiro de 2010

3 - «O Senhor dos Anéis» (trilogia, 2001-2003), de Peter Jackson


Uma incrível e monumental jornada que nos permitiu fazer parte da irmandade que lutou pelo Bem com tudo o que de melhor se pode encontrar na Humanidade: amizade, coragem, solidariedade, fidelidade, devoção. Tudo contra o Mal supremo, o exterior e aquele que existe dentro de nós sempre pronto a ser chamado pelas trevas que espreitam a cada canto. O que torna ímpar e grandioso este empreendimento é um conjunto de factores, dos quais se destacam: a história original de Tolkien, clássico dos clássicos e base de tudo; a visão, talento e capacidade de trabalho de Peter Jackson; a escolha e entrega dos actores na personificação dos seus papéis; e todo o trabalho técnico que permitiu criar ao pormenor um novo mundo nunca visto, povoado de lugares de sonho e de criaturas fantásticas. Mas nenhuma criação visual geraria verdadeira emoção se não fosse credível e assente no melhor da dimensão humana. Por tudo isto, uma das melhores e mais comoventes sensações da saga é a noção de que a sorte não é algo aleatório, mas fruto daquilo que os outros fazem por nós na mesma medida em que nós também fazemos pelos outros. Foi assim que funcionou a Irmandade do Anel e foi isso que os conduziu à glória. Pode ser utópico, mas que seria do mundo sem a utopia? «O Senhor dos Anéis» é um colosso cinematográfico sem paralelo e a melhor publicidade que se pode fazer às quase ilimitadas capacidades do cinema nos trazer emoção e deslumbramento.

25 de Janeiro de 2010

4 - «Memento» (2000), de Christopher Nolan


Um fabuloso exercício cinematográfico! A estrutura narrativa fragmentada e arrevesada assenta na perfeição a um filme que é, não só um thriller, mas acima de tudo uma grande história sobre as ficções e a condição humana. É também um brilhante estudo sobre a memória e sobre como ela é indissociável da identidade e da construção da realidade, ou antes, de cada realidade. Mostrando primeiro o efeito e depois a causa, o filme coloca-nos tantas questões quanto nos baralha as ideias... Como disse o João Lopes, é um desafio eufórico à arte de ser espectador. E de que maneira! Um objecto fascinante, tanto para uma aula de psicologia como para uma aula de cinema...

21 de Janeiro de 2010

5 - «INLAND EMPIRE» (2006), de David Lynch


Não se sabe muito bem que filme é este, mas é daquelas experiências verdadeiramente fascinantes, como só David Lynch consegue criar (lembro-me dos geniais «Eraserhead» ou «Lost Highway»). Um filme para nos perdermos e logo nos reencontrarmos num jogo de espelhos genial onde o verdadeiro sentido só existe num lugar que está para além da razão, um lugar de transcendência a que só grandes artistas conseguem chegar. Inacreditável.

19 de Janeiro de 2010

6 - «A Vida Não é um Sonho» (2000), de Darren Aronofsky


Arrasador, «Requiem for a Dream» sintetiza o pesadelo em que a vida se pode transformar, particularmente se ela se basear numa adicção – qualquer que ela seja: a droga, a televisão, as dietas… Filme definitivo sobre a dependência, e também sobre a solidão, realizado em autêntico estado de graça, «A Vida Não é um Sonho» inquieta-nos, agride-nos, obriga-nos a achar bela a fealdade do mundo, ou de algumas coisas do mundo. Tem uma banda sonora sublime e uma daquelas interpretações (Ellen Burstyn) que valem uma carreira. Mas não é filme para rever tão cedo, tamanho soco sensitivo se leva.

18 de Janeiro de 2010

7 - «Relatório Minoritário» (2002), de Steven Spielberg


Eis um filme que faz a síntese entre o entretenimento mais espectacular e a análise mais íntima da natureza humana. É um filme tão "cheio" que se torna difícil apreendê-lo cabalmente com um só visionamento. O argumento é fabuloso: um homem acossado pelo futuro que vive no presente a tentar vingar o passado é um postulado suficientemente genial para moldar um magistral empreendimento cinematográfico, mas Spielberg e a sua equipa conseguiram-no. Consegue notar-se a influência de filmes como «Blade Runner», «Seven», e de mestres como Hitchcock e Kubrick, ao mesmo tempo que permanece a marca autoral do seu realizador. Contém cenas de pura magia emocional.

17 de Janeiro de 2010

8 - «As Horas» (2002), de Stephen Daldry


Uma intensa experiência emocional. Raramente se viu num filme tamanha concentração de interpretações fora de série: não apenas as três geniais actrizes principais, mas todo o resto do elenco, com especial destaque para Ed Harris, Stephen Dillane, Toni Colette e Miranda Richardson. Os seus trabalhos são de tal forma impressionantes que a magia acontece e contagia toda a narrativa. Notável é também o trabalho do realizador Stephen Daldry, que aposta nos grandes planos, nos olhares das personagens, na intensidade dos diálogos, deixando fluir a corrente secreta que une as três histórias e as três actrizes. Preponderante é a montagem e a oportunidade dos “raccords”, a sublinhar essas relações secretas, a dar peso aos silêncios e substância igual ao dito e ao não-dito. «As Horas» não é apenas um filme, é uma profundíssima e desesperada prova de vida. O terrível é perceber que funciona como um espelho. A arte é isso. A capacidade que o Homem tem de se rever na criação do outro.