«Em Parte Incerta» é um filme sobre muitas coisas: a realidade, a ficção, a vida conjugal, o quarto poder, a imaginação. Mas é acima de tudo uma grande peça de entretenimento,
de uma inteligência sem limites, não obstante o seu implacável cinismo e, mais do que isso, anti-romantismo. É um hino ao artifício e às possibilidades infinitas que uma história encerra.
Gillian Flynn criou um fabuloso guião que adapta o seu romance homónimo, encontrando em David Fincher o parceiro ideal para traduzir em imagens a sua história (o Óscar
de Argumento Adaptado espreita, sim). Merece ainda destaque a excelente banda sonora de Trent Reznor e Atticus Ross, mais uma colaboração com David Fincher, após «Rede Social» e «Os Homens Que Odeiam as Mulheres». Sem hesitação, um dos grandes filmes do ano.
2 de outubro de 2014
Em Parte Incerta (Gone Girl, 2014), de David Fincher
1 de abril de 2014
A Vida de Adèle (La Vie D'Adèle, 2013), de Abdellatif Kechiche
À flor da pele rima com Adèle e podia ser um título alternativo para este excelente naco de cinema servido pelo tunisino responsável pelo também suculento «O Segredo de um Cuscuz». A protagonista é admirável e fascinante é a forma como mergulhamos na sua vida através desta história. O azul é aqui, de facto, a cor mais quente, desde logo pela intensidade da paixão da dupla feminina, responsável por um punhado de sequências escaldantes. Vibrante, belo, capaz de nos ligar aos insondáveis mistérios do amor, aos cambiantes do desejo e à inelutável passagem do tempo. Assim é este filme imperdível.
10 de março de 2014
12 Anos Escravo (12 Years a Slave, 2013), de Steve McQueen
«12 Anos Escravo» ganhou o Óscar de Melhor Filme deste ano. Mas não é por essa razão que se trata de um grande filme. «12 Anos Escravo» é um grande filme porque nos confronta com a importância que tem, para um ser humano, a liberdade. «12 Anos Escravo» é um grande filme porque sabe mostrar como a História é feita de uma permanente dialéctica entre as regras sócio-políticas e as idiossincrasias de cada indivíduo. «12 Anos Escravo» é um grande filme porque coloca no centro da sua proposta dramática o trabalho dos actores e a sua capacidade para tocar o coração do espectador através das suas personagens. Finalmente, convém lembrar que a escravatura foi abolida, mas nem por isso desapareceu, ainda que em geografias difusas (incluindo à nossa porta) e sob formas diversas.
6 de março de 2014
O Conselheiro (The Counselor, 2013), de Ridley Scott
É verdade que falha aquilo que podia ser uma prodigiosa
aliança cinematográfica: um argumento original de um grande escritor como
Cormac McCarthy com a realização de um dos estetas de Hollywood, Ridley Scott.
Ainda assim, sobra muito de bom e de interessante, tanto ao nível da trama e
dos diálogos como do ponto de vista visual. Muito duro e desencantado em alguns
momentos, um pouco frio até, tem uma cena de sexo absolutamente antológica
(onde a descrição se sobrepõe ao que é mostrado), que só por si já torna o
filme memorável.
31 de dezembro de 2013
Filmes mais aguardados de 2014
1 - Interstellar, de Christopher Nolan
2 - Transcendence, de Wally Pfister
3 - Noah, de Darren Aronofsky
4 - Her, de Spike Jonze
5 - Gone Girl, de David Fincher
6 - Trash, de Stephen Daldry
7 - Birdman, de Alejandro Gonzalez Iñarritu
8 - Inherent Vice, de Paul Thomas Anderson
9 - Knight of Cups, de Terrence Malick
10 - 12 Years a Slave, de Steve McQueen
Ainda falta o novo de Scorsese (The Wolf of Wall Street, estreia dia 9) e o do Cronenberg (Maps to the Stars, ainda vai demorar uns meses).
Melhores filmes de 2013
A imprescindível lista dos poucos filmes que foi possível conhecer nos últimos doze meses. Liderada pelo belíssimo filme de Tornatore, um hino à irredutível solidão do ser humano (mas também um elegante thriller com toques hitchcockianos), tem outras propostas que valem muito a pena. Se pudessem entrar os filmes não estreados em sala, a vitória caberia ao sensacional «Pietá», de Kim Ki-Duk.
1 - A Melhor Oferta, de Giuseppe Tornatore
2 - Antes da meia-noite, de Richard Linklater
3 - A Essência do Amor, de Terrence Malick
4 - Bestas do Sul Selvagem, de Benh Zeitlin
5 - Ferrugem e Osso, de Jacques Audiard
6 - 00:30 A Hora Negra, de Kathryn Bigelow
7 - Lore, de Cate Shortland
8 - Guia para um Final Feliz, de David O. Russell
9 - Lincoln, de Steven Spielberg
10 - Eu e Tu, de Bernardo Bertolucci
5 de novembro de 2013
Antes da Meia-Noite (Before Midnight, 2013), de Richard Linklater
Após «Before Sunset» (1995) e «Before Sunrise» (2004), regressamos à história de Jesse (Ethan Hawke) e Céline (Julie Delpy). Agora nos 40, o casal vai voltar a confrontar-se e a colocar o amor à prova, desta vez em férias na Grécia. Este terceiro andamento da história iniciada em Viena é o mais perturbador, desde logo porque a implacável passagem do tempo traz angústias, rugas, desilusões e dessintonias. Mas eles continuam os mesmos e teimam romanticamente em não desistir um do outro. Com diálogos hiper-realistas, vamos assistindo a situações que espelham na perfeição o que é o masculino-feminino e como as relações num casal tanto se antagonizam como se (re)conciliam. Céline revela-se bela, inteligente e docemente sarcástica, mas também egoísta, intratável e eternamente insatisfeita. Jesse, por seu lado, mostra imaturidade, narcisismo e primarismo, mas também preocupação, sensibilidade e uma quase comovente devoção à sua amada.
O que é mais incrível neste filme é a forma como consegue desconstruir o conto de fadas romântico, ao mesmo tempo que mostra como ele é necessário e, até, possível. Uma quimera que se esconde e se mostra no rosto da pessoa amada, que está mesmo ali, tão perto e tão longe. Cada diálogo encena essa procura e esse mistério.
A sequência no quarto de hotel é uma das melhores do cinema recente ao nível da dissecação da vida a dois. E é impossível, para alguém na mesma faixa etária, não se rever (a si e ao seu parceiro) nesta história tão sedutora quanto assustadora. Tal como na (nossa) vida, queremos tanto que tudo dê certo.
23 de setembro de 2013
Pietá (2012), de Kim Ki-Duk
Um filme fabuloso, dos melhores dos últimos tempos, que alia a substância das ideias ao prazer de contar uma história.
A primeira meia hora fez-me lembrar de «Eraserhead», de David Lynch, com as deprimentes paisagens industriais (agora a cores) e um protagonista meio alucinado (embora bem mais ofensivo). Mas rapidamente a história evolui para um entusiasmante conto de vingança e redenção, explanando de forma brilhante as relações essenciais mãe-filho enquanto flui em direcção ao surpreendente epílogo. É um filme duro e violento, mas uma daquelas experiências cinematográficas inesquecíveis.
Depois do extraordinário «Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera», estou definitivamente rendido a este cineasta sul-coreano.
15 de julho de 2013
Assassinos em Férias (Sightseers, 2012), de Ben Wheatley
Imagine-se «Bonnie e Clyde» realizado por Mike Leigh, com uma infusão do humor de «Braindead», de Peter Jackson, e teremos uma ideia do tipo de filme que se nos apresenta. É, na verdade, uma hilariante digressão pelo countryside britânico, para audiências adultas, tal é o nível de amoralidade e as situações chocantes. Destaque ainda para a óptima integração dos temas dos Soft Cell e dos Frankie Goes to Hollywood na banda sonora. O final, esse, é um exemplo brilhante de humor negro (ou será amor negro?). Edgar Wright continua a dar cartas, desta vez como produtor executivo.
10 de junho de 2013
Esquecido (Oblivion, 2013), de Joseph Kosinski
Interessante pelo mix de referências cinéfilas, pelo belo desenho de produção e por alguns momentos da história. Apesar de tudo, há pontas soltas no argumento e a noção de que estamos a assistir a um digest de filmes de ficção científica. A banda sonora tonitruante dos M83 também não ajuda. Mas no global é um bom filme.
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