28 de janeiro de 2010

2 - «O Estranho Caso de Benjamin Button» (2009), de David Fincher


Um clássico instantâneo e um daqueles exemplos do cinema enquanto arte maior. Uma história em jeito de fábula protagonizada por um ser muito especial, que nasce velho e morre bebé, mas que afinal descobrimos ser igual a todos os outros seres humanos. Amor, desejo, alegria, tristeza, vida, morte, dor, são os ingredientes deste filme comovente e absolutamente extraordinário. Para além do grande argumento, realização e interpretações, merece destaque o assombroso trabalho de caracterização e efeitos especiais que, ao contrário do que é corrente, estão apenas ao serviço da história e não procuram o protagonismo. Inesquecível.

26 de janeiro de 2010

3 - «O Senhor dos Anéis» (trilogia, 2001-2003), de Peter Jackson


Uma incrível e monumental jornada que nos permitiu fazer parte da irmandade que lutou pelo Bem com tudo o que de melhor se pode encontrar na Humanidade: amizade, coragem, solidariedade, fidelidade, devoção. Tudo contra o Mal supremo, o exterior e aquele que existe dentro de nós sempre pronto a ser chamado pelas trevas que espreitam a cada canto. O que torna ímpar e grandioso este empreendimento é um conjunto de factores, dos quais se destacam: a história original de Tolkien, clássico dos clássicos e base de tudo; a visão, talento e capacidade de trabalho de Peter Jackson; a escolha e entrega dos actores na personificação dos seus papéis; e todo o trabalho técnico que permitiu criar ao pormenor um novo mundo nunca visto, povoado de lugares de sonho e de criaturas fantásticas. Mas nenhuma criação visual geraria verdadeira emoção se não fosse credível e assente no melhor da dimensão humana. Por tudo isto, uma das melhores e mais comoventes sensações da saga é a noção de que a sorte não é algo aleatório, mas fruto daquilo que os outros fazem por nós na mesma medida em que nós também fazemos pelos outros. Foi assim que funcionou a Irmandade do Anel e foi isso que os conduziu à glória. Pode ser utópico, mas que seria do mundo sem a utopia? «O Senhor dos Anéis» é um colosso cinematográfico sem paralelo e a melhor publicidade que se pode fazer às quase ilimitadas capacidades do cinema nos trazer emoção e deslumbramento.

25 de janeiro de 2010

4 - «Memento» (2000), de Christopher Nolan


Um fabuloso exercício cinematográfico! A estrutura narrativa fragmentada e arrevesada assenta na perfeição a um filme que é, não só um thriller, mas acima de tudo uma grande história sobre as ficções e a condição humana. É também um brilhante estudo sobre a memória e sobre como ela é indissociável da identidade e da construção da realidade, ou antes, de cada realidade. Mostrando primeiro o efeito e depois a causa, o filme coloca-nos tantas questões quanto nos baralha as ideias... Como disse o João Lopes, é um desafio eufórico à arte de ser espectador. E de que maneira! Um objecto fascinante, tanto para uma aula de psicologia como para uma aula de cinema...

21 de janeiro de 2010

5 - «INLAND EMPIRE» (2006), de David Lynch


Não se sabe muito bem que filme é este, mas é daquelas experiências verdadeiramente fascinantes, como só David Lynch consegue criar (lembro-me dos geniais «Eraserhead» ou «Lost Highway»). Um filme para nos perdermos e logo nos reencontrarmos num jogo de espelhos genial onde o verdadeiro sentido só existe num lugar que está para além da razão, um lugar de transcendência a que só grandes artistas conseguem chegar. Inacreditável.

19 de janeiro de 2010

6 - «A Vida Não é um Sonho» (2000), de Darren Aronofsky


Arrasador, «Requiem for a Dream» sintetiza o pesadelo em que a vida se pode transformar, particularmente se ela se basear numa adicção – qualquer que ela seja: a droga, a televisão, as dietas… Filme definitivo sobre a dependência, e também sobre a solidão, realizado em autêntico estado de graça, «A Vida Não é um Sonho» inquieta-nos, agride-nos, obriga-nos a achar bela a fealdade do mundo, ou de algumas coisas do mundo. Tem uma banda sonora sublime e uma daquelas interpretações (Ellen Burstyn) que valem uma carreira. Mas não é filme para rever tão cedo, tamanho soco sensitivo se leva.

18 de janeiro de 2010

7 - «Relatório Minoritário» (2002), de Steven Spielberg


Eis um filme que faz a síntese entre o entretenimento mais espectacular e a análise mais íntima da natureza humana. É um filme tão "cheio" que se torna difícil apreendê-lo cabalmente com um só visionamento. O argumento é fabuloso: um homem acossado pelo futuro que vive no presente a tentar vingar o passado é um postulado suficientemente genial para moldar um magistral empreendimento cinematográfico, mas Spielberg e a sua equipa conseguiram-no. Consegue notar-se a influência de filmes como «Blade Runner», «Seven», e de mestres como Hitchcock e Kubrick, ao mesmo tempo que permanece a marca autoral do seu realizador. Contém cenas de pura magia emocional.

17 de janeiro de 2010

8 - «As Horas» (2002), de Stephen Daldry


Uma intensa experiência emocional. Raramente se viu num filme tamanha concentração de interpretações fora de série: não apenas as três geniais actrizes principais, mas todo o resto do elenco, com especial destaque para Ed Harris, Stephen Dillane, Toni Colette e Miranda Richardson. Os seus trabalhos são de tal forma impressionantes que a magia acontece e contagia toda a narrativa. Notável é também o trabalho do realizador Stephen Daldry, que aposta nos grandes planos, nos olhares das personagens, na intensidade dos diálogos, deixando fluir a corrente secreta que une as três histórias e as três actrizes. Preponderante é a montagem e a oportunidade dos “raccords”, a sublinhar essas relações secretas, a dar peso aos silêncios e substância igual ao dito e ao não-dito. «As Horas» não é apenas um filme, é uma profundíssima e desesperada prova de vida. O terrível é perceber que funciona como um espelho. A arte é isso. A capacidade que o Homem tem de se rever na criação do outro.

15 de janeiro de 2010

9 - «Dancer in the Dark» (2000), de Lars Von Trier


A mistura do melodrama mais pesado com o musical mais inesperado resulta num hino ao cinema e numa sinfonia da alma. O amor, a fé e o sacrifício conjugam-se numa metafísica paradoxalmente contrastante com a dimensão demasiado humana e imperfeita da protagonista. A fabulosa Björk/Selma é, sem dúvida, a personagem que aglutina todo o filme, não deixando espaço para mais ninguém. De tal forma, que a sua estreia na representação lhe deixou marcas profundas. O hiperbólico calvário de Selma permite que as suas imaginadas coreografias e as deliciosas músicas resultem para o espectador como ouvir o som do mar num deserto. São interlúdios deslocados que traduzem musical e pictoricamente a grande alma da protagonista. O aparente equilíbrio precário entre a cinzenta realidade, a caminhar inapelavelmente para a escuridão, e a garrida festa do seu mundo interior, contribui para a magnífica materialização cinematográfica que, no fundo, é também uma bela metáfora da sétima arte: ficamos cegos para a realidade para passarmos a ver bem melhor os sonhos. O final é um dos mais incómodos de que há memória. Comovente, memorável, arrebatador.

14 de janeiro de 2010

10 - «Babel» (2006), de Alejandro González Iñarritu


Filmada em três continentes e em quatro línguas, «Babel» é uma obra-prima que surge como uma metáfora do mundo contemporâneo, explorando o seu dramatismo e a sua complexidade. Um mergulho no âmago da família, da intimidade, da comunicabilidade ou falta dela, do peso variável de cada vida, dos acasos e dos destinos. «Babel» atinge-nos fundo e fica a ecoar em nós como todos os grandes filmes.

Melhores filmes da década


Aproveitando a década que se encerra agora (sem discutir se deve incluir o ano de 2010 ou não - eu considero apenas os anos de 2000 a 2009) e outras votações semelhantes que têm surgido, vou de seguida apresentar aqueles que são para mim os 10 melhores filmes da primeira década do século XXI. Vou apresentá-los por ordem crescente de importância, do 10.º até ao 1.º lugar, em posts separados - um para cada filme. Evidentemente que estas votações não têm nenhum valor "científico" - nem isso é possível na arte - e é mais uma forma lúdica de retrospectivar grandes experiências de cinema. Boa viagem!