10 de janeiro de 2007

A Rainha (The Queen, 2006), de Stephen Frears


Um bom filme, mas também um filme que não evita que se pense ter estado a assistir a um telefilme. Helen Mirren é extraordinária, a dissecação do período de crise da instituição monárquica durante os dias de luto referentes à morte da Princesa Diana também é interessante, mas falta muita acutilância a Stephen Frears (ele que tem excelentes filmes) para levar este projecto a um desfecho mais empolgante. Ainda assim, uma cena marcante: Isabel II a contemplar o veado que todos procuram, achando algo nela que a devolve ao despojamento do peso da coroa.

28 de dezembro de 2006

“Happy Feet – O Pinguim” (2006), de George Miller


Um bom filme de animação com um belo elenco vocal de onde se destaca Robin Williams. Está longe de um “Shrek” ou um “Nemo”, mas ainda assim vale a pena ver. Ainda por cima tem uma mensagem ecológica bem entrosada na história e que dá origem a uma sequência bem conseguida.

17 de dezembro de 2006

The Departed: Entre Inimigos (“The Departed”, 2006), de Martin Scorsese


Um magnífico filme de “toupeiras” servido por um elenco que brilha a grande nível. Se é sempre de esperar o melhor de um filme de Scorsese, também aqui não saímos desiludidos. Todos os ingredientes são do melhor: argumento, montagem, fotografia, banda sonora (com grandes momentos) e, claro, as representações. No conjunto da obra de Scorsese, este é mesmo dos filmes mais lúdicos, com o apetitoso (mas violento) jogo de máscaras a durar até ao fim, sempre com surpresas e sem buracos na trama. Quanto aos actores, temos o extraordinário Jack Nicholson (num dos seus cada vez mais raros papéis de vilão sério, embora com graça), DiCaprio a provar mais uma vez que a confiança que Marty lhe vem conferindo não é um acaso e, entre outros (para mim, uma surpresa), o brilhante papel de Mark Wahlberg. É sempre um prazer ir ao cinema para ver filmes destes. Já agora, a nota para uma das melhores sequências do filme: a conversa entre DiCaprio e Nicholson no bar com o último a farejar o primeiro (a possível traição) quase até ao tutano…

10 de dezembro de 2006

O Perfume - História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, Tom Tykwer, 2006)


Estamos na presença de uma fascinante fábula que nos arrasta para uma história de um mundo onde o olfacto tem um lugar muito especial. O mérito poderá estar em grande parte no romance que lhe deu vida, e imortalizou Patrick Suskind, mas não me parece que o alemão Tom Tykwer se tenha saído mal na sua dificílima transposição em imagens e sons. Não parece ser essa a opinião da maioria dos críticos. Para mim, todavia, foi um grande prazer seguir nesta viagem liderada por um anti-herói trágico, sem odor, que procura acabar com a solidão que o amaldiçoava desde nascença manipulando todos os perfumes do mundo. Merecem destaque os (assinaláveis) meios de produção que edificaram o projecto e lhe deram brilho visual. E uma última palavra para a extraordinária narração em off de John Hurt.

4 de dezembro de 2006

Os Filhos do Homem (The Children of Men, 2006), de Alfonso Cuarón


Valendo acima de tudo pelo seu retrato futurista, cinzento, onde o poente da humanidade se aproxima assustadora e irremediavelmente, esta adaptação do romance de P.D. James não chega a encher as medidas. Sobram, contudo, alguns bons momentos de emoção e um esboço do que poderia ser um mundo sem um dos seus mais preciosos bens: as crianças. Clive Owen está de boa forma e recomenda-se, só se lamentando o pouco tempo de ecrã de Julianne Moore. Um bom filme.

19 de outubro de 2006

“Voltar” (“Volver”, 2006), de Pedro Almodóvar


É verdade que não é do melhor de Almodóvar, mas mesmo assim é um filme que vale a pena. História de mulheres, conta com uma deslumbrante Penélope Cruz e uma história bem interessante (emocional e intrigante) com laivos de fantástico… Já se sabe, é o indicado por Espanha para a nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

15 de setembro de 2006

«Voo 93» («United 93», 2006), de Paul Greengrass


Mais adaptado à televisão do que ao cinema, este eficiente docudrama foi a mais próxima evocação cinematográfica feita dos terríveis acontecimentos de 11/09/2001. Serve para nos colocar no interior do acontecimento, neste caso do voo 93, o único dos quatro que não conseguiu atingir o alvo almejado pelos terroristas naquele fatídico dia. Tem o poder emocional de retratar com realismo a situação inaudita que está em causa, mas não é propriamente memorável pelo seu conteúdo artístico. Merece a pena ser visto, especialmente por quem se interessa pela recriação (competente) da história e pela revivência de uma situação incompreensível. Mas quanto a uma ficção forte inspirada pelos acontecimentos reais esperemos que o filme de Oliver Stone nos traga mais satisfação...

10 de julho de 2006

Muitas palmas para "Sete Palmos de Terra"


Em dia de último episódio (22h30, 2:), vale a pena fazer um grande encómio à extraordinária série "Sete Palmos de Terra" ("Six Feet Under").
Partindo de um conceito interessantíssimo (o dia-a-dia de uma família que gere uma empresa funerária), a série criou um conjunto de personagens absolutamente fascinantes, de uma densidade humana fora do vulgar, com as quais nos identificamos tanto (às vezes) ou então sentimos através delas aquela noção de "como as coisas são" (em toda a sua intensidade, irredutibilidade ou até em todo o esplendor da sua dimensão patética).
Os diálogos são assombrosos, a realização estupenda, idem para a fotografia e a inesquecível banda sonora. Raramente uma série televisiva nos fez confrontar tanto com a essência do ser humano, da sua relação com os outros e da sua inexpugnável solidão. Os últimos espisódios, então, têm ecoado fundo na alma...

6 de julho de 2006

«Hard Candy» (2005), de David Slade


Interessante thriller com um «look» muito limpo e ar de independente, este é um filme que se segue com interesse, pois nunca sabemos muito bem aquilo que nos espera. Embora tenha a pedofilia como pano de fundo, esta história é mais um jogo psicológico entre duas personagens, e com o espectador, do que uma reflexão sobre o tema. Num espaço bem delimitado, os dois actores (óptimos, especialmente a jovem Ellen Page) entregam-se a um exercício de entrega emocional assinalável. O problema é uma certa falta de verosimilhança em muitas situações. A inteligência (a roçar a genialidade), calculismo, frieza e maturidade de uma criança de 14 anos são excessivos, mesmo querendo ter boa vontade. Para além desse «calcanhar de Aquiles», há também algumas situações que forçam a credibilidade e minam aquilo que se queria um exercício em que se pudesse mergulhar sem pensar que estamos a ver uma representação.
Apesar disso, merece elogios pelos diversos momentos de intensas emoções, pelo brilhantismo de alguns diálogos e pelo sentido de humor. Em suma, um bom filme independente, embora algo sobrevalorizado.

23 de junho de 2006

«O Novo Mundo» («The New World», 2005), de Terrence Malick


A expressão que me parece caracterizar melhor este filme é «diamante em bruto». Quero com isto dizer que se trata de uma preciosidade, mas que lhe falta trabalho de lapidação. As sequências na natureza são muito belas, o tempo que a câmara se demora na exploração de um rosto, uma textura ou um curso de água permite a elevação para um patamar narrativo que dá ao espectador outra fruição. Mas tudo isto parece ser feito com o desprezo pelo aperfeiçoar do todo, ou seja, a montagem não efectuou o seu trabalho de forma a sublimar um arrebatamento que poderia ter existido.
As personagens – à excepção talvez da central, interpretada excelentemente pela jovem Q’Orianka Kilcher (um achado de expressividade e de força natural) – também não têm a dimensão que se exigia, nem são desenvolvidas de uma forma adequada a um filme com laivos de épico. É, pois, nesse sentido, quase um anti-épico.
Claro que Terrence Malick é um cineasta especial e uma vez mais isso nota-se aqui. De qualquer forma, é pena ficar-se com uma noção de desequilíbrio (e de aborrecimento, a espaços) quando se vislumbra tanto talento ao nível do tratamento visual e da transcendência de códigos narrativos e plásticos. É um belo filme que podia ter sido uma obra-prima se não se quisesse fugir a todo o custo ao convencional.