10 de dezembro de 2006

O Perfume - História de um Assassino (Perfume: The Story of a Murderer, Tom Tykwer, 2006)


Estamos na presença de uma fascinante fábula que nos arrasta para uma história de um mundo onde o olfacto tem um lugar muito especial. O mérito poderá estar em grande parte no romance que lhe deu vida, e imortalizou Patrick Suskind, mas não me parece que o alemão Tom Tykwer se tenha saído mal na sua dificílima transposição em imagens e sons. Não parece ser essa a opinião da maioria dos críticos. Para mim, todavia, foi um grande prazer seguir nesta viagem liderada por um anti-herói trágico, sem odor, que procura acabar com a solidão que o amaldiçoava desde nascença manipulando todos os perfumes do mundo. Merecem destaque os (assinaláveis) meios de produção que edificaram o projecto e lhe deram brilho visual. E uma última palavra para a extraordinária narração em off de John Hurt.

4 de dezembro de 2006

Os Filhos do Homem (The Children of Men, 2006), de Alfonso Cuarón


Valendo acima de tudo pelo seu retrato futurista, cinzento, onde o poente da humanidade se aproxima assustadora e irremediavelmente, esta adaptação do romance de P.D. James não chega a encher as medidas. Sobram, contudo, alguns bons momentos de emoção e um esboço do que poderia ser um mundo sem um dos seus mais preciosos bens: as crianças. Clive Owen está de boa forma e recomenda-se, só se lamentando o pouco tempo de ecrã de Julianne Moore. Um bom filme.

19 de outubro de 2006

“Voltar” (“Volver”, 2006), de Pedro Almodóvar


É verdade que não é do melhor de Almodóvar, mas mesmo assim é um filme que vale a pena. História de mulheres, conta com uma deslumbrante Penélope Cruz e uma história bem interessante (emocional e intrigante) com laivos de fantástico… Já se sabe, é o indicado por Espanha para a nomeação ao Óscar de Melhor Filme Estrangeiro.

15 de setembro de 2006

«Voo 93» («United 93», 2006), de Paul Greengrass


Mais adaptado à televisão do que ao cinema, este eficiente docudrama foi a mais próxima evocação cinematográfica feita dos terríveis acontecimentos de 11/09/2001. Serve para nos colocar no interior do acontecimento, neste caso do voo 93, o único dos quatro que não conseguiu atingir o alvo almejado pelos terroristas naquele fatídico dia. Tem o poder emocional de retratar com realismo a situação inaudita que está em causa, mas não é propriamente memorável pelo seu conteúdo artístico. Merece a pena ser visto, especialmente por quem se interessa pela recriação (competente) da história e pela revivência de uma situação incompreensível. Mas quanto a uma ficção forte inspirada pelos acontecimentos reais esperemos que o filme de Oliver Stone nos traga mais satisfação...

10 de julho de 2006

Muitas palmas para "Sete Palmos de Terra"


Em dia de último episódio (22h30, 2:), vale a pena fazer um grande encómio à extraordinária série "Sete Palmos de Terra" ("Six Feet Under").
Partindo de um conceito interessantíssimo (o dia-a-dia de uma família que gere uma empresa funerária), a série criou um conjunto de personagens absolutamente fascinantes, de uma densidade humana fora do vulgar, com as quais nos identificamos tanto (às vezes) ou então sentimos através delas aquela noção de "como as coisas são" (em toda a sua intensidade, irredutibilidade ou até em todo o esplendor da sua dimensão patética).
Os diálogos são assombrosos, a realização estupenda, idem para a fotografia e a inesquecível banda sonora. Raramente uma série televisiva nos fez confrontar tanto com a essência do ser humano, da sua relação com os outros e da sua inexpugnável solidão. Os últimos espisódios, então, têm ecoado fundo na alma...

6 de julho de 2006

«Hard Candy» (2005), de David Slade


Interessante thriller com um «look» muito limpo e ar de independente, este é um filme que se segue com interesse, pois nunca sabemos muito bem aquilo que nos espera. Embora tenha a pedofilia como pano de fundo, esta história é mais um jogo psicológico entre duas personagens, e com o espectador, do que uma reflexão sobre o tema. Num espaço bem delimitado, os dois actores (óptimos, especialmente a jovem Ellen Page) entregam-se a um exercício de entrega emocional assinalável. O problema é uma certa falta de verosimilhança em muitas situações. A inteligência (a roçar a genialidade), calculismo, frieza e maturidade de uma criança de 14 anos são excessivos, mesmo querendo ter boa vontade. Para além desse «calcanhar de Aquiles», há também algumas situações que forçam a credibilidade e minam aquilo que se queria um exercício em que se pudesse mergulhar sem pensar que estamos a ver uma representação.
Apesar disso, merece elogios pelos diversos momentos de intensas emoções, pelo brilhantismo de alguns diálogos e pelo sentido de humor. Em suma, um bom filme independente, embora algo sobrevalorizado.

23 de junho de 2006

«O Novo Mundo» («The New World», 2005), de Terrence Malick


A expressão que me parece caracterizar melhor este filme é «diamante em bruto». Quero com isto dizer que se trata de uma preciosidade, mas que lhe falta trabalho de lapidação. As sequências na natureza são muito belas, o tempo que a câmara se demora na exploração de um rosto, uma textura ou um curso de água permite a elevação para um patamar narrativo que dá ao espectador outra fruição. Mas tudo isto parece ser feito com o desprezo pelo aperfeiçoar do todo, ou seja, a montagem não efectuou o seu trabalho de forma a sublimar um arrebatamento que poderia ter existido.
As personagens – à excepção talvez da central, interpretada excelentemente pela jovem Q’Orianka Kilcher (um achado de expressividade e de força natural) – também não têm a dimensão que se exigia, nem são desenvolvidas de uma forma adequada a um filme com laivos de épico. É, pois, nesse sentido, quase um anti-épico.
Claro que Terrence Malick é um cineasta especial e uma vez mais isso nota-se aqui. De qualquer forma, é pena ficar-se com uma noção de desequilíbrio (e de aborrecimento, a espaços) quando se vislumbra tanto talento ao nível do tratamento visual e da transcendência de códigos narrativos e plásticos. É um belo filme que podia ter sido uma obra-prima se não se quisesse fugir a todo o custo ao convencional.

12 de junho de 2006

«O Tempo que Resta» («Le Temps qui Reste», 2005), de François Ozon


Reflexão sobre a morte, o novo filme de François Ozon segue Romain (excelente Melvil Poupaud), fotógrafo de moda com pouco mais de 30 anos e uma sentença fatal como resultado de um cancro disseminado. Romain vai-se despedindo da vida sem redenções eloquentes, fúrias rebeldes ou confissões imperativas. Basicamente, vai-se confrontando com imagens da infância, revê os seus entes queridos, fotografa, e vai sucumbindo sem lutar. Para o espectador, nós/eu, é obviamente incómodo e profundamente comovente (no sentido íntimo do constante mistério que é lidar com o tema do fim da existência) assistir aos últimos momentos da vida desta pessoa/personagem comum, sem exemplarismos morais, virtudes elevadas ou sequer particular simpatia. Nesse âmbito, podemos falar de realismo quando pensamos no perfil psicológico e atitudinal de Romain.
François Ozon executa um trabalho sóbrio de realização, sempre interessado no seu protagonista e respectivo caminho até ao melancólico e poético soçobrar na praia ao entardecer. Mesmo sem um grande argumento ou suficiente desenvolvimento de personagens secundárias ou suas relações (merece destaque a carismática presença de Jeanne Moreau como avó), este é um filme muito interessante, principalmente pelo retrato do protagonista e pela forma como ele nos faz também pensar sobre o efémero.

30 de maio de 2006

«O Código Da Vinci» («The Da Vinci Code», 2006), de Ron Howard


Para ir directo ao assunto, devo dizer que este é um bom thriller, feito para o grande público, mas com matéria suficiente para entreter enquanto nos faz reflectir sobre a História, especialmente a religiosa. Claro que grande parte do mérito do empreendimento vem da história original – o estrondoso fenómeno literário que Dan Brown criou. Não li o livro, mas é óbvio que se trata de um enredo imaginativo, uma deliciosa especulação que fascina por lidar com temas como as sociedades secretas, a arte e a história. Quero crer que é mesmo uma vantagem abordar o filme sem ter lido a obra literária, pois assim se evita a dispersão que sempre acarreta a comparação entre os dois. Vejam-se a propósito as reacções generalizadas de desilusão que os fãs do livro têm manifestado.
É óbvio que Ron Howard é um cineasta menor, rotineiro e incapaz de surpreender, mas tem que se compreender que era isso mesmo que o estúdio pretendia para alterar o mínimo possível aquilo que já era um estrondoso sucesso público. Podemos imaginar o que outro realizador (mais talentoso) faria com este material? Sem dúvida que sim. Mas aquilo que temos é uma história capaz de prender, fabricada com todos os ingredientes à disposição desta indústria.
Quanto à polémica, é contraproducente e acaba por ser quase ridícula. Obviamente que os protestos só geram publicidade gratuita e maior curiosidade. Este filme é tudo menos polémico e não podia ter ar mais ficcional…

4 de maio de 2006

«A Criança» («L’Enfant», 2005), de Luc e Jean-Pierre Dardenne


Emotivo exemplo do realismo contemporâneo (neo-realismo ou o que lhe quisermos chamar), este é um belo filme representativo de um cinema sem artifícios, directo, que conta uma história tão próxima de nós que quase a podemos tocar. Não há modificações em relação ao estilo dos irmãos belgas (veja-se o caso da outra Palma de Ouro, «Rosetta»), sem concessões, que jogam tudo no efeito de verdade que conseguem retirar dos seus actores, perseguindo-os implacavelmente de câmara ao ombro, perscrutando-os em grandes planos, acompanhando-os nas suas deambulações.
Neste caso, temos um pequeno delinquente, Bruno, que se vê a braços com um filho para o qual não está preparado. A sua falta de responsabilidade e de maturidade fazem com que coloque o bebé no centro dos seus esquemas para ganhar dinheiro sem trabalhar, mas a namorada, Sonia, não é da mesma estirpe e entra em colapso com a perda do bebé. Mas a redenção é possível…
Para além de sermos tocados por aqueles seres algo marginais, ainda em crescimento, mas inicialmente felizes, impressiona a forma como nos interessamos pelas suas opções, atitudes e trajectos, num percurso que quase se transforma num filme de suspense. É uma história de amor entre dois jovens (excelentes as sequências carnais sem sexo que quase tiram o fôlego ao casal), um retrato da realidade suburbana europeia das margens, uma ilustração do poderoso instinto materno (e da paternidade indiferente?)… Enfim, um conto da contemporaneidade onde não faltam os sinais do progresso (o uso do telemóvel é central) nem as características humanas que permanecem. Só não se percebe porque estreia quase um ano depois da consagração máxima em Cannes...