Todas as análises aos filmes de Woody Allen invariavelmente têm que abordar essa própria condição. Concretizando, é incontornável que respondam a duas questões: corresponde àquilo que o autor nos habituou, à sua chamada imagem de marca? Está acima ou abaixo da sua média? A resposta à primeira pergunta é: sem dúvida. Relativamente à segunda, eu diria que está na média dos seus filmes.
Embora a sua obra seja predominantemente inscrita na matriz narrativa da comédia, a dicotomia drama/comédia não lhe é alheia, até porque muitas vezes Woody Allen encenou dramas, com maiores ou menores doses de humor. Essa dicotomia é o núcleo deste filme e pode considerar-se conseguido o exercício de imbricar duas histórias como aproximações artísticas possíveis de uma só realidade base. Claro que estamos na presença de uma estrutura que se afirma mais enquanto jogo dramatúrgico, mas pelo meio vai sendo possível verificar que comédia ou tragédia pode ser apenas uma questão de... perspectiva.
Os actores vão muito bem, com destaque para Will Ferrel no papel que seria puro Woody Allen se ele o resolvesse interpretar, e acima de todos Radha Mitchell. Esta é soberba, especialmente a corporizar as nuances dramáticas da sua personagem - uma excelente interpretação que merecia obter um muito mais amplo reconhecimento.
28 de janeiro de 2005
11 de janeiro de 2005
"À Procura da Terra do Nunca" (Finding Nerverland, 2004), de Marc Forster
Uma belíssima surpresa. Baseado numa peça teatral que tenta mostrar como o autor do clássico Peter Pan (J. M. Barrie) encarnava o espírito da famosa personagem infantil, o filme de Marc Forster é de uma tal justeza de meios e de uma tal intensidade dramática que proporciona momentos de verdadeira magia. Sem dúvida que convoca o imaginário de Tim Burton e, muito concretamente, o de "Big Fish", possuindo evidentes semelhanças a nível de ambiências e de temas (e também no prazer que confere ao espectador). Nem por acaso, é protagonizado pelo actor-fetiche de Burton - que não entra em "Big Fish" -, o senhor Johnny Depp numa interpretação memorável que quase faz esquecer os outros méritos do filme. Verdade seja dita, este é um dos seus maiores papéis de sempre - e logo ele que não tem poucos papéis de relevo. Acresce que o tom bizarro e saudavelmente demente da sua personagem acrescenta-a à fantástica galeria que inclui, entre outros, Eduardo mãos de tesoura, Ed Wood ou Ichabod Crane (de "Sleepy Hollow"). Os outros actores têm também óptimas prestações, com destaque para Kate Winslet (muito convincente como mãe) e o pequeno intérprete de Peter (o seu rosto triste é de uma expressividade a toda a prova).
O filme fala da imaginação como motor de vida e utiliza a fantasia não como materialização escapista, mas antes como lugar acessível a partir da realidade que somos capazes de criar. Apesar do maravilhamento que o teor fantasista convoca, o filme não contorna as dores do crescimento nem a angústia das perdas irreparáveis. Antes concilia a diversão com a tragédia, permitindo que a primeira não iluda a segunda. Comoção garantida, cinema de primeira.
O filme fala da imaginação como motor de vida e utiliza a fantasia não como materialização escapista, mas antes como lugar acessível a partir da realidade que somos capazes de criar. Apesar do maravilhamento que o teor fantasista convoca, o filme não contorna as dores do crescimento nem a angústia das perdas irreparáveis. Antes concilia a diversão com a tragédia, permitindo que a primeira não iluda a segunda. Comoção garantida, cinema de primeira.
29 de dezembro de 2004
Lista dos melhores filmes de 2004
1 - Primavera, Verão, Outono, Inverno... e Primavera, de Kim Ki-Duk
2 - Terminal de aeroporto, de Steven Spielberg
3 - O Amor é um lugar estranho, de Sofia Coppola
4 - O Grande Peixe, de Tim Burton
5 - 21 Gramas, de Alejandro Gonzalez Iñarritu
6 - Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci
7 - À Procura da Terra do Nunca, de Marc Forster
8 - Alexandre, o grande, de Oliver Stone
9 - A Vila, de M. Night Shyamalan
10 - Antes do anoitecer, de Richard Linklater
Num ano em que, por razões pessoais de menor disponibilidade, não vi vários dos filmes que mais interesse me despertaram, esta é a lista possível.
Talvez por isso mesmo, este pareceu-me um ano em que a qualidade foi um pouco inferior à do precedente. Contudo, foi exibido muito bom cinema e - o que é muito salutar e tendência recente - diverso em origem e género. Nem por acaso, o meu filme preferido (a experiência zen do ano) foi a sublime fábula sul-coreana que acompanha o desfile das estações do ano em paralelo com as estações (estados) da vida humana. Não queria ainda deixar de enfatizar o regresso em forma do grande senhor do cinema que é Bernardo Bertolucci - "Os Sonhadores" é uma belíssima homenagem ao cinema e à juventude - e o mal-amado épico de Oliver Stone que me proporcionou (a despeito das expectativas modestas) uma das melhores sessões de cinema do ano. Mesmo a finalizar 2004, o mágico e comovente "À Procura da Terra do Nunca" (com um fabuloso Johnny Depp) conseguiu encontrar um lugar indiscutível nesta lista.
Votos de um excelente 2005!
22 de dezembro de 2004
"Alexandre, o grande" (Alexander, 2004), de Oliver Stone
Domingo, 14h55, cinemas Saldanha. Desloco-me às bilheteiras para comprar o ingresso para o último filme de Oliver Stone (arrasado pela maioria dos críticos e público portugueses e norte-americanos). Com as expectativas desinsufladas, constato haver apenas bilhetes para a primeira fila. Seria verdade que só na primeira fila este Alexandre se tornaria realmente grande? Ver para crer...
E o que vi? Um excelente filme que retrata um mito com toda a sua amálgama de incidências, das tortuosas relações familiares às desvairadas ambições militares, das complexas ligações amorosas às visionárias perspectivas sobre o mundo e os povos. A história de um homem maior que a vida, contada com desequilíbrios e excessos - é verdade - mas talvez por isso mesmo, decorrente de uma vontade quase febril de abarcar a torrente de histórias que à sua volta se criaram.
Num filme com este tema era impossível evitar a polémica. Quando os registos históricos que existem são muitas vezes contraditórios, dificilmente se poderia escapar a uma concepção necessariamente subjectiva de tamanha personagem, mais devedora da lenda que da realidade. Ora, esta dimensão megalómana (Megalexandros) é mostrada de forma visceral e caótica, mas apaixonante. Alexandre é corajoso, utópico, generoso, impiedoso, determinado, sensível, etc. Tudo em simultâneo. Resulta daí um ser complexo a que não é alheia a sua educação, lutando tanto contra os seus fantasmas quanto contra os inimigos. O mais interessante é sempre a forma ambígua como a sua personalidade é retratada, fugindo a tentações unidimensionais. Claro que o elenco é muito criticado, mas na minha opinião todos estão à altura dos seus papéis, incluindo Colin Farrell (um papel muito difícil), Anthony Hopkins (não me pareceu nada maçador, desculpem-me), Val Kilmer e Angelina Jolie. Quanto à última, é evidente que não disfarça a exígua diferença de idades em relação ao protagonista, mas isso até se esquece rapidamente tal é a sua beleza enfeitiçante e perversa retratando uma mãe possessiva com alma de bruxa (que importa o sotaque?).
Se as personagens e seus intérpretes asseguram a densidade dramática ao empreendimento, a concepção visual (e sonora) não desilude: que outro epíteto senão belíssimas merecem as imagens da Babilónia, Alexandria, batalha de Gaugamela ou a sequência do duelo de Alexandre e o seu Bucéfalo contra um elefante?
Um épico poderoso, mal amado, ousado e desequilibrado, que preferiu dar mais visibilidade ao íntimo do que ao público. Oliver Stone teve que aguentar com as críticas, mas o que é certo é que chegou a tempo de integrar a minha lista dos melhores filmes do ano. Façam-lhe justiça: vão ver!
E o que vi? Um excelente filme que retrata um mito com toda a sua amálgama de incidências, das tortuosas relações familiares às desvairadas ambições militares, das complexas ligações amorosas às visionárias perspectivas sobre o mundo e os povos. A história de um homem maior que a vida, contada com desequilíbrios e excessos - é verdade - mas talvez por isso mesmo, decorrente de uma vontade quase febril de abarcar a torrente de histórias que à sua volta se criaram.
Num filme com este tema era impossível evitar a polémica. Quando os registos históricos que existem são muitas vezes contraditórios, dificilmente se poderia escapar a uma concepção necessariamente subjectiva de tamanha personagem, mais devedora da lenda que da realidade. Ora, esta dimensão megalómana (Megalexandros) é mostrada de forma visceral e caótica, mas apaixonante. Alexandre é corajoso, utópico, generoso, impiedoso, determinado, sensível, etc. Tudo em simultâneo. Resulta daí um ser complexo a que não é alheia a sua educação, lutando tanto contra os seus fantasmas quanto contra os inimigos. O mais interessante é sempre a forma ambígua como a sua personalidade é retratada, fugindo a tentações unidimensionais. Claro que o elenco é muito criticado, mas na minha opinião todos estão à altura dos seus papéis, incluindo Colin Farrell (um papel muito difícil), Anthony Hopkins (não me pareceu nada maçador, desculpem-me), Val Kilmer e Angelina Jolie. Quanto à última, é evidente que não disfarça a exígua diferença de idades em relação ao protagonista, mas isso até se esquece rapidamente tal é a sua beleza enfeitiçante e perversa retratando uma mãe possessiva com alma de bruxa (que importa o sotaque?).
Se as personagens e seus intérpretes asseguram a densidade dramática ao empreendimento, a concepção visual (e sonora) não desilude: que outro epíteto senão belíssimas merecem as imagens da Babilónia, Alexandria, batalha de Gaugamela ou a sequência do duelo de Alexandre e o seu Bucéfalo contra um elefante?
Um épico poderoso, mal amado, ousado e desequilibrado, que preferiu dar mais visibilidade ao íntimo do que ao público. Oliver Stone teve que aguentar com as críticas, mas o que é certo é que chegou a tempo de integrar a minha lista dos melhores filmes do ano. Façam-lhe justiça: vão ver!
13 de dezembro de 2004
Os 10 filmes mais esperados de 2005
[Obviamente, esta é uma escolha pessoal de algumas prováveis estreias nos nossos cinemas no próximo ano. Haverá certamente outros filmes (muitos mais, esperemos) capazes de despertar o interesse dos cinéfilos]
1 - War of the worlds, de Steven Spielberg
Com um orçamento superior aos 120 milhões de dólares, a versão spielberguiana do clássico de H.G. Wells celebrizado pela versão radiofónica de Orson Welles promete ser um espectáculo emocionante. Tom Cruise é o protagonista, o argumento é de David Koepp e os inevitáveis John Williams (música) e Janusz Kaminski (fotografia) não faltam à chamada. Com o luxo destes ingredientes, nada pode correr mal...
2 - The Aviator, de Martin Scorsese
O pioneiro da aviação e cineasta Howard Hughes retratado pelo mestre Scorsese. Leonardo di Caprio, Kate Beckinsale, Cate Blanchett e Alan Alda protagonizam. Argumento de John Logan e restante ficha técnica de luxo (Thelma Schoonmaker, Robert Richardson, Howard Shore, Dante Ferreti...).
3 - Charlie and the chocolate factory, de Tim Burton
A partir de um livro de Roald Dahl, o mago Tim Burton mostra a história de Willy Woncka (Johnny Depp), dono de um império de chocolate. Música de Danny Elfman e fotografia de Phillipe Rousselot. O prognóstico afigura-se delicioso...
4 - The New World, de Terrence Malick
A colisão de culturas entre os exploradores europeus e os nativos americanos na América do séc. XVII. Um novo filme de Terrence Malick não é privilégio frequente, há que aproveitar. Protagonizam Colin Farrell, Christopher Plummer, Christian Bale e David Thewlis. Fotografia de Emmanuel Lubezki.
5 - Manderlay, de Lars Von Trier
Segunda parte da trilogia USA que se iniciou com o impressionante "Dogville". Nicole Kidman foi substituída pela revelação de "A Vila", Bryce Dallas Howard, e o resto do elenco é uma constelação: Willem Dafoe, John C. Reilly, Lauren Bacall, Danny Glover, Chloe Sevigny, Stellan Skarsgard, Jeremy Davies...
6 - A History of Violence, de David Cronenberg
Baseado numa novela gráfica, conta com as interpretações de William Hurt, Viggo Mortensen e Ed Harris. A fotografia é de Peter Suschitzky e a música de Howard Shore, mas é a assinatura de Cronenberg que faz esperar mais uma experiência alucinante.
7 - King Kong, de Peter Jackson
O remake do famosíssimo filme de 1933 pelo autor da fantástica saga "O Senhor dos Anéis". A equipa técnico-artística é praticamente a mesma, à excepção dos actores: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody e Andy Serkis (sim, o Gollum). Com um orçamento superior aos 100 milhões de dólares, é grande a curiosidade de ver uma versão nova de um clássico que é simultaneamente "o filme seguinte" de Jackson-para-sempre-marcado-pela-trilogia-do-anel.
8 - The Brothers Grimm, de Terry Gilliam
Aventura ficcional baseada nos famosos irmãos colectores de fábulas que se imortalizaram no imaginário colectivo. Parece ser óptimo material para o criativo (mas desigual) membro dos Monty Python. Filmado em Praga, com argumento de Ehren Kruger, conta no seu elenco com Matt Damon, Heath Ledger, Peter Stormare, Jonathan Pryce e Monica Bellucci. Estranho é a sua estreia americana ter tido sucessivos adiamentos...
9 - Oliver Twist, de Roman Polanski
Revisitação do clássico de Charles Dickens pela maior parte da equipa responsável pelo "Pianista". Também filmado em Praga, conta com o argumento de Ronald Harwood e o protagonismo de Ben Kingsley.
10 - Batman begins, de Christopher Nolan
Os primórdios do herói alado captados pela câmara do prodígio Christopher Nolan, que também co-escreve o argumento. Christian Bale interpreta Bruce Wayne, o contrário de um "american psycho"... Engraçado era o filme ser narrado ao contrário!
1 - War of the worlds, de Steven Spielberg
Com um orçamento superior aos 120 milhões de dólares, a versão spielberguiana do clássico de H.G. Wells celebrizado pela versão radiofónica de Orson Welles promete ser um espectáculo emocionante. Tom Cruise é o protagonista, o argumento é de David Koepp e os inevitáveis John Williams (música) e Janusz Kaminski (fotografia) não faltam à chamada. Com o luxo destes ingredientes, nada pode correr mal...
2 - The Aviator, de Martin Scorsese
O pioneiro da aviação e cineasta Howard Hughes retratado pelo mestre Scorsese. Leonardo di Caprio, Kate Beckinsale, Cate Blanchett e Alan Alda protagonizam. Argumento de John Logan e restante ficha técnica de luxo (Thelma Schoonmaker, Robert Richardson, Howard Shore, Dante Ferreti...).
3 - Charlie and the chocolate factory, de Tim Burton
A partir de um livro de Roald Dahl, o mago Tim Burton mostra a história de Willy Woncka (Johnny Depp), dono de um império de chocolate. Música de Danny Elfman e fotografia de Phillipe Rousselot. O prognóstico afigura-se delicioso...
4 - The New World, de Terrence Malick
A colisão de culturas entre os exploradores europeus e os nativos americanos na América do séc. XVII. Um novo filme de Terrence Malick não é privilégio frequente, há que aproveitar. Protagonizam Colin Farrell, Christopher Plummer, Christian Bale e David Thewlis. Fotografia de Emmanuel Lubezki.
5 - Manderlay, de Lars Von Trier
Segunda parte da trilogia USA que se iniciou com o impressionante "Dogville". Nicole Kidman foi substituída pela revelação de "A Vila", Bryce Dallas Howard, e o resto do elenco é uma constelação: Willem Dafoe, John C. Reilly, Lauren Bacall, Danny Glover, Chloe Sevigny, Stellan Skarsgard, Jeremy Davies...
6 - A History of Violence, de David Cronenberg
Baseado numa novela gráfica, conta com as interpretações de William Hurt, Viggo Mortensen e Ed Harris. A fotografia é de Peter Suschitzky e a música de Howard Shore, mas é a assinatura de Cronenberg que faz esperar mais uma experiência alucinante.
7 - King Kong, de Peter Jackson
O remake do famosíssimo filme de 1933 pelo autor da fantástica saga "O Senhor dos Anéis". A equipa técnico-artística é praticamente a mesma, à excepção dos actores: Naomi Watts, Jack Black, Adrien Brody e Andy Serkis (sim, o Gollum). Com um orçamento superior aos 100 milhões de dólares, é grande a curiosidade de ver uma versão nova de um clássico que é simultaneamente "o filme seguinte" de Jackson-para-sempre-marcado-pela-trilogia-do-anel.
8 - The Brothers Grimm, de Terry Gilliam
Aventura ficcional baseada nos famosos irmãos colectores de fábulas que se imortalizaram no imaginário colectivo. Parece ser óptimo material para o criativo (mas desigual) membro dos Monty Python. Filmado em Praga, com argumento de Ehren Kruger, conta no seu elenco com Matt Damon, Heath Ledger, Peter Stormare, Jonathan Pryce e Monica Bellucci. Estranho é a sua estreia americana ter tido sucessivos adiamentos...
9 - Oliver Twist, de Roman Polanski
Revisitação do clássico de Charles Dickens pela maior parte da equipa responsável pelo "Pianista". Também filmado em Praga, conta com o argumento de Ronald Harwood e o protagonismo de Ben Kingsley.
10 - Batman begins, de Christopher Nolan
Os primórdios do herói alado captados pela câmara do prodígio Christopher Nolan, que também co-escreve o argumento. Christian Bale interpreta Bruce Wayne, o contrário de um "american psycho"... Engraçado era o filme ser narrado ao contrário!
10 de dezembro de 2004
"Misteriosa Obsessão" (The Forgotten, 2004), de Joseph Ruben
E se de repente só nós tivéssemos memórias de uma determinada pessoa - por exemplo, do nosso filho? E se mais ninguém se lembrasse dela, nem as pessoas que connosco partilharam momentos em conjunto? Em síntese, se nos dissessem que as memórias que temos do nosso filho foram inventadas e ele nunca existira?
É esse o (intrigante) ponto de partida deste thriller sobrenatural que coloca em campo os mecanismos que compõem a memória e, neste caso, a sua relação com os sentimentos. Julianne Moore faz com o seu talento habitual o papel de mãe que não quer esquecer o filho que todos querem que ela esqueça. Ela e esta ideia da memória enquanto alicerce da identidade são o que de melhor o filme tem, pois no restante não consegue descolar do convencional neste tipo de narrativas, acabando por resvalar para terrenos contíguos aos da "Teoria da Conspiração", de Richard Donner. Alfre Woodward também tem uma presença carismática, até que... enfim, só visto!
Um entretenimento médio que pode ser o ponto de partida para conversas interessantes, mas não entusiasma pela inventividade dos materiais fílmicos.
É esse o (intrigante) ponto de partida deste thriller sobrenatural que coloca em campo os mecanismos que compõem a memória e, neste caso, a sua relação com os sentimentos. Julianne Moore faz com o seu talento habitual o papel de mãe que não quer esquecer o filho que todos querem que ela esqueça. Ela e esta ideia da memória enquanto alicerce da identidade são o que de melhor o filme tem, pois no restante não consegue descolar do convencional neste tipo de narrativas, acabando por resvalar para terrenos contíguos aos da "Teoria da Conspiração", de Richard Donner. Alfre Woodward também tem uma presença carismática, até que... enfim, só visto!
Um entretenimento médio que pode ser o ponto de partida para conversas interessantes, mas não entusiasma pela inventividade dos materiais fílmicos.
26 de novembro de 2004
"Os Diários de Che Guevara" (The Motorcycle Diaries, 2004), de Walter Salles
Belíssimo exemplo da viagem iniciática que deixa uma marca indelével na alma dos viajantes. Contornando o comercialmente aproveitador e erróneo título português, chegamos a um filme que conta a odisseia de Alberto e Ernesto através da América do Sul, maioritariamente feita na motocicleta que de poderosa só a ironia tinha. Contada com enorme sensibilidade humana (o desenvolvimento da amizade entre os dois e a consciência social larvar) e cromática (excelente a fotografia de Eric Gautier - e que paisagens recorta), esta história revela o estado das coisas numa América Latina artificialmente dividida pela política e pelos estratos sociais.
São muito injustas algumas leituras do filme à luz de preconceitos políticos alicerçados na figura que se viria a tornar o Ernesto Guevara deste filme (o Che); leituras essas que, na minha opinião, turvam a visão daquilo que esta fita tem de essencial e que não é nada de panfletário. Mas ao contrário de muitas opiniões, considero este um filme altamente político. Não o serão todos os verdadeiros grandes filmes? Que outra forma igualmente potente existe de ser político do que ir ao âmago da consciência humana?
Os actores têm um óptimo desempenho: se Garcia Bernal se cimenta como estrela latina maior da Meca do cinema, Rodrigo de la Serna é uma deliciosa revelação como o amigo Alberto Granado (de quem vislumbramos o rosto real na actualidade no final do filme - e os olhos que misturam desencanto com uma réstea de utopia).
Referência final para o extraordinário epílogo a preto e branco condensando os retratos humanos daquela América sofredora, nitidamente influenciado pelo trabalho fotográfico de Sebastião Salgado.
São muito injustas algumas leituras do filme à luz de preconceitos políticos alicerçados na figura que se viria a tornar o Ernesto Guevara deste filme (o Che); leituras essas que, na minha opinião, turvam a visão daquilo que esta fita tem de essencial e que não é nada de panfletário. Mas ao contrário de muitas opiniões, considero este um filme altamente político. Não o serão todos os verdadeiros grandes filmes? Que outra forma igualmente potente existe de ser político do que ir ao âmago da consciência humana?
Os actores têm um óptimo desempenho: se Garcia Bernal se cimenta como estrela latina maior da Meca do cinema, Rodrigo de la Serna é uma deliciosa revelação como o amigo Alberto Granado (de quem vislumbramos o rosto real na actualidade no final do filme - e os olhos que misturam desencanto com uma réstea de utopia).
Referência final para o extraordinário epílogo a preto e branco condensando os retratos humanos daquela América sofredora, nitidamente influenciado pelo trabalho fotográfico de Sebastião Salgado.
9 de novembro de 2004
"Colateral" (Collateral, 2004), de Michael Mann
Michael Mann filma a noite de Los Angeles com uma luminosidade inaudita. Embarcamos então numa paisagem nocturna singularmente clara para acompanhar o trajecto de morte que um "cool" (frio, mas também estiloso) assassino profissional (Tom Cruise) vai empreender com a ajuda de uma possível vítima colateral (o "taxista" Jamie Foxx).
Como é habitual na obra de Mann (à excepção do supremo "Heat"), fica-se sempre muito próximo do grande filme ("O Informador", "Ali"), mas há qualquer coisa que o detém quando quase alcança um patamar superior. Aqui o problema talvez seja a ocorrência de algumas inverosimilhanças dispensáveis (para além do ar de T-1000 de Cruise na perseguição - óptima - de Metro). Mas não apetece muito falar de defeitos numa fita tão agradável de seguir como uma viagem nocturna de táxi onde se congeminam os mundos que podem ser. Por último, mas não menos importante: a banda-sonora é bela e os actores estão muito bem afinados.
Como é habitual na obra de Mann (à excepção do supremo "Heat"), fica-se sempre muito próximo do grande filme ("O Informador", "Ali"), mas há qualquer coisa que o detém quando quase alcança um patamar superior. Aqui o problema talvez seja a ocorrência de algumas inverosimilhanças dispensáveis (para além do ar de T-1000 de Cruise na perseguição - óptima - de Metro). Mas não apetece muito falar de defeitos numa fita tão agradável de seguir como uma viagem nocturna de táxi onde se congeminam os mundos que podem ser. Por último, mas não menos importante: a banda-sonora é bela e os actores estão muito bem afinados.
3 de novembro de 2004
I can't believe in it!
Uma pausa nas fitas para voltar à tragicómica realidade... Não é que George W. Bush - o mentiroso presidente dos EUA que com a sua política do "far-west" tem tornado o mundo cada vez mais perigoso e dividido - vai ser reeleito para o cargo?!
Confesso a minha estupefacção. Para mim, o seu rosto (podem chamar-lhe preconceito, mas é de tal forma evidente...) é suficiente para abafar qualquer tentativa séria de uma carreira política. Mas enfim, ultrapassemos isso e centremo-nos apenas nos factos, na obra e não no homem. Qual é o resultado? Desastroso, sem dúvida. Mas não foi essa a conclusão dos norte-americanos. Pelos vistos, as evidências não são assim tão evidentes.
Parece lógico que neste segundo mandato a sua administração não voltará a cometer os mesmos erros (talvez cometa outros piores), mas ainda assim é assustador ver entregue o mundo (macro-económica e politicamente falando) de bandeja a tão insólita (porque caricatural) e perigosa personagem. Às vezes, parece haver uma inversão entre a realidade e a ficção. Veja-se a figura de Bush sem reacção durante uma eternidade quando o informam do segundo atentado no 11 de Setembro (cf. "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore) e agora comparem com o presidente Palmer da série "24" (actualmente em exibição na 2). A quem confiariam a sala oval?
O mundo é de uma ironia implacável. A mesma terra que cria fantásticas personagens ficcionais pela sua complexidade e criatividade elege para liderar os seus destinos uma criatura cuja unidimensionalidade e irresponsabilidade faz temer pelo futuro de todos. Assim não seja!
Confesso a minha estupefacção. Para mim, o seu rosto (podem chamar-lhe preconceito, mas é de tal forma evidente...) é suficiente para abafar qualquer tentativa séria de uma carreira política. Mas enfim, ultrapassemos isso e centremo-nos apenas nos factos, na obra e não no homem. Qual é o resultado? Desastroso, sem dúvida. Mas não foi essa a conclusão dos norte-americanos. Pelos vistos, as evidências não são assim tão evidentes.
Parece lógico que neste segundo mandato a sua administração não voltará a cometer os mesmos erros (talvez cometa outros piores), mas ainda assim é assustador ver entregue o mundo (macro-económica e politicamente falando) de bandeja a tão insólita (porque caricatural) e perigosa personagem. Às vezes, parece haver uma inversão entre a realidade e a ficção. Veja-se a figura de Bush sem reacção durante uma eternidade quando o informam do segundo atentado no 11 de Setembro (cf. "Fahrenheit 9/11", de Michael Moore) e agora comparem com o presidente Palmer da série "24" (actualmente em exibição na 2). A quem confiariam a sala oval?
O mundo é de uma ironia implacável. A mesma terra que cria fantásticas personagens ficcionais pela sua complexidade e criatividade elege para liderar os seus destinos uma criatura cuja unidimensionalidade e irresponsabilidade faz temer pelo futuro de todos. Assim não seja!
19 de outubro de 2004
"Antes do anoitecer" (Before Sunset, 2004), de Richard Linklater
Apetece começar por dizer que este pode ser um filme objecto de paixão, a mesma que os dois seres que o protagonizam descobrem nutrir um pelo outro. Por ele passa uma sensação inebriada de vida que só as paixões podem conferir: aquela sensação indomável de que se é capaz de fazer o que quer que seja, sem limites. Neste caso, porém, dá-se uma revisitação desta sensação (ocorrida nove anos antes na Viena de "Antes do amanhecer"). Agora, Jesse e Céline revivem a sua paixão num tempo e num espaço (Paris, mais símbolo que personagem) que os obriga a avaliar se ainda são os mesmos, pois as circunstâncias são bem diferentes e os caminhos de vida também. Redescobrem-se, mais maduros e menos ingénuos, numa espiral sentimental que os vai obrigar a reviver o passado e a re-perspectivar o futuro. É impressionante a forma realista como os seus trajectos de vida - principalmente o dele - nos são mostrados. Aqueles dois seres estão tão próximos de nós que não os precisamos de imaginar - são reais.
Poucos filmes mostraram a essência do romantismo de forma tão intimista e verdadeira. O fascínio de um homem por uma mulher, a sintonia comunicacional transformada numa pequena sinfonia composta pelas palavras certas, gestos simples, sorrisos cúmplices, silêncios transbordantes. Ethan Hawke e Julie Delpy são fantásticos e o realizador Richard Linklater consegue a proeza de repetir o mesmo efeito do filme de 1995. Com uma vantagem: agora as personagens apreciam mais os momentos únicos da vida - e nós com eles.
Mesmo que excessivamente palavroso (o filme não descansa dos diálogos nem repousa numa paisagem), este é um filme absolutamente especial para quem acredita que, num mundo de cinismo e de pragmatismo, o amor romântico ainda é possível - ou melhor, imprescindível.
Poucos filmes mostraram a essência do romantismo de forma tão intimista e verdadeira. O fascínio de um homem por uma mulher, a sintonia comunicacional transformada numa pequena sinfonia composta pelas palavras certas, gestos simples, sorrisos cúmplices, silêncios transbordantes. Ethan Hawke e Julie Delpy são fantásticos e o realizador Richard Linklater consegue a proeza de repetir o mesmo efeito do filme de 1995. Com uma vantagem: agora as personagens apreciam mais os momentos únicos da vida - e nós com eles.
Mesmo que excessivamente palavroso (o filme não descansa dos diálogos nem repousa numa paisagem), este é um filme absolutamente especial para quem acredita que, num mundo de cinismo e de pragmatismo, o amor romântico ainda é possível - ou melhor, imprescindível.
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